Musa Híbrida

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 Pelotas deve ser responsável por 99,99% do meu TOC em criar mapas. Nasci ali, nunca morei lá. O ano do nascimento inteiro, 1980, depois tchau. Pelotas virou destino de regresso, férias, visita ao vô e à vó e à tia e ao primo e à família – um tanto de ponto em um mapa que ficava bem longe do Rio de Janeiro. Os Brilhantes, a Católica, o Barro Duro, o Areal, o relógio do Mercado, o calçadão, um monte de praças, as caminhadas com o vô, cafés, o nêgo Plotino, Monte Bonito, Manta, Turis, os camiseta-preta, doce de nozes da tia Maria, Diamantino, xavantes, Laranjal, pombas, giras, Preto Velho, terreiro, batizado. Simões Lopes Neto veio nas leituras do vestibular, Vitor Ramil na Ipanema. Era um norte no sul, uma bússola de cabeça pra baixo, os pinguins e cientistas do Herzog. Escorregar. Ao sul e adentro. Ladeira abaixo veio agora: Las Vulvas, Subjetivas, Vapor Barato, Angélica Freitas , Xoxotas de Pelotas. Pelotas é das mina, mana. O quadrado é um triângulo. Forte, denso, pulsante e delas. Feminino, feminismo, lua crescente do meio de setembro. Era isso tudo aqui dentro, faz tempo, e eu ainda não tinha sacado. Ele sintetizou de novo: “Vagabundagem & Boemia & Preguiça & Desregramento”, os fab four satolepenses. We all live no submarino do Seu Delamar e lá a noite começa tarde: – “Vocês já vão? O pessoal ainda nem começou a chegar”. A festa da Helô só ia começar mesmo lá pelas duas da manhã. Amarelei e me arrependi. O domingo começou cedo no Laranjal, pular a grade do píer, caminhar até a ponta, queimar uma ponta. À tarde, encontramos o Vini tomando café na sala de casa depois de pouco sono. Ele foi na festa da Helô, não se arrependeu. Chegou o APJ, chegou a Cuqui, chegaram elas. Pelotas é das mina, lembra? Ela agora toca baixo, ele guitarra e ele solta todos os timbres no pod xamã que conduz a cerimônia. A porra toda em vibração. Filmamos uma, duas, três vezes. Estava bom desde a primeira, mas eu queria ficar lá ouvindo tudo de novo. Uma das melhores partes desse trabalho é essa performance particular. Petit comité de verdade, na sala do apê do cara. Vamos mais uma? A luz começa a baixar, o sol avermelha tudo. Como será que vai ficar em tons de cinza? Vamos de novo as duas, valendo com essa luz. “Valeu?”. Se valeu! “Mas vocês já vão? A gente pensou em comer algo e beber depois, topam?” Topamos. Várias latas, algumas garrafas, um maço de Ica, uma reclamação dos vizinhos por barulho e um monte de histórias: os mosquitos sedentos do Musa Mato Vivo, o teclado infantil pré-pod do Vini, APJ derrubando cerveja no teclado não infantil no aniversário do Vini, o dono da banda, esse jeito de fazer as coisas em família que eles têm. A familiaridade de Pelotas. Na saída, eu descubro que o apê dele é do lado da casa da tia Regina e do ateliê do Becker, o alemão que fazia time de botão de acrílico e que me vendeu um time azul e vermelho que me fez ganhar o campeonato paulista da minha quadra ou do meu prédio, nem lembro. Na TV as Olimpíadas, o golpe, os memes, “os meninos trazem refri, as meninas medalha”. A porra toda em comunhão, a não ser pela amarelada na festa da Helô.

Leo Caobelli (Pelotas, setembro de 2016)

Manga Rosa

Território/Fauna

Infravisceral

Ficha Técnica:
Direção de Fotografia / Câmera 1 – Leo Caobelli
Câmera 2 / Edição – Vicente Carcuchinski
Fotografia Still – Sheila Uberti
Produção – Julia Assef
Desenho de Som / Som Direto – Vini Albernaz

Bio

 Alércio, Cuqui & Vini. A Musa Híbrida é um triângulo, se equilibra em um tripé. A voz e as letras de Alércio e Cuqui interagem com elementos visuais e experimentam roupagens contemporâneas. Orgânico e eletrônico: Bandolim, contrabaixo e uma guitarra azul piscina combinado com beats, sintetizadores, samples e outros efeitos tecnológicos ao gosto refinado do Vini Albernaz.

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