Mar de Marte

capa

 A estrada de Porto Alegre pra Erechim é longa, e fizemos várias pausas durante o caminho. Pela primeira vez, nessa quarta e penúltima viagem do Fauna esse ano, viajamos o trajeto inteiro com alguém da banda até o local da gravação, e parece que não poderia ter sido de outra forma. O Marcelo, baixista da Mar de Marte foi o guia a nos conduzir até o lugar sagrado onde a banda se reúne: o Sítio Holístico Mitakuye Oyasin, próximo à Gaurama, cidade vizinha de Erechim, onde nasceram os outros dois componentes desse pequeno cosmos que formam os três.

 Erechim é um termo caiguangue que significa “campo pequeno”, e o sítio, pequeno (e ao mesmo tempo, quase infinito) reduto de calma, era como estar em casa. Quando nos deparamos pela primeira vez com aquele organismo vivo, adormecido pela ausência do sol mas iluminado pela exuberância da lua cheia, ninguém conseguiu conter a gratidão por estar ali e nem o pensamento de que, dali pra frente, só ia melhorar. A acolhida do mato e da noite só podia ser comparada com a recepção de Dha Rano, o baterista da Mar de Marte, e dos outros moradores do sítio: Parinam, Sandesh e Pratik sha que, cheios de amor e energia, fizeram de tudo pra nos deixar confortáveis.

 Não querendo perder tempo, já na primeira noite saímos a fazer experiências e imagens da relva já molhada pelo orvalho da manhã, mas ainda fria pela escuridão da madrugada. Nas refeições, durante nossa estadia, comida vegetariana, salada e frutas da horta, manteiga e pão caseiro e produtos comprados de vizinhos para ajudar a subsistência de outros sítios: desintoxicação necessária para nos preparar para o que estava por vir. Dormimos à noite em barracas aconchegadas dentro de um galpão repleto de boas vibrações, mesmo lugar onde os ensaios da banda e aulas de yoga acontecem durante o ano. Acordando já no dia de gravação, sem saber se ali o tempo voava ou nós que voávamos nele, preparamos o galpão e começamos os trabalhos.

 Para quem nunca ouviu a banda, o contexto descrito acima talvez pudesse sugerir uma sonoridade paralela com novos baianos, mas ouvindo a psicodelia feroz, quase epifânica do power trio formado por Gabo, Dha Rano e Marcelo, dá pra entender muito rápido a relação deles com a música. A vida e a banda estarem longe da cidade grande não é um capricho, muito menos acaso: o sentimento do colapso é presença constante no trabalho da Mar de Marte. Tanto em Oceano de Urano quanto em Meducq, o início é estável, quase calmo, tudo para quebrar o silêncio depois e mostrar que atrás de toda estabilidade existe a fúria caótica do infinito, do qual observamos uma fração naquela mesma noite, deitados na grama com os olhos no céu estrelado, consagrando e usufruindo a natureza e todas as coisas.

Vicente Carcuchinski (Gaurama, setembro de 2016)

Oceano de Urano

Território/Fauna

Meducq

Ficha Técnica:

Gabriel Balbinot | Guitarra
Marcelo Acosta | Baixo
Dha Rano | Bateria

Direção de Fotografia / Câmera 1 – Leo Caobelli
Câmera 2 / Edição – Vicente Carcuchinski
Fotografia Still – Caroline Lutckmeier
Produção – Calma Lab
Desenho de Som / Som Direto – Coletivo 4’33”

Bio

 Mar de Marte é um grupo instrumental formado em Erechim no Rio Grande do Sul. Com uma coloração psicodélica e espacial nos arranjos, mesclando simplicidade e minimalismo, o grupo dispensa vocais, mesmo assim proporcionam uma verdadeira poesia instrumental com clima totalmente intimista. Após as primeiras apresentações divulgando o novo material pelo Rio Grande do Sul, a banda saiu para sua primeira turnê Brasil afora, com datas em São Paulo e Rio de Janeiro, também passando pelo Paraná e Santa Catarina e finalizando o ano no Rio grande do Sul. Mar de Marte tem na formação Gabriel Balbinot (guitarra), Marcelo Acosta (baixo) e Dha Rano (bateria).

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