João Ortácio

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 No terraço do estúdio Tung, quando gravamos o João Ortácio (e quando o ouvi pela primeira vez), o vento soprava tranquilo na tarde de domingo. Talvez fosse o cenário ideal pra escutar ele tocando – ou talvez tivesse sido ensaiando na cozinha, 15 minutos antes, nunca vamos saber. Tipo quieto, mas de jeito simpático, João faz pensar na melancolia: de amar, de trabalhar, de viver; do peso do ar na casa bagunçada. Faz se identificar. Já na primeira música, Conta-gotas, a voz suave, quase íntima e o violão ecoando as palavras sinceras da letra mostraram sua força, do tipo que consegue abrir uma fresta no peito, por onde senti o vento gelado da varanda passar. Naquele momento, só queria estar uns instantes em casa, pra chorar um pouco nos braços da minha companheira, no reconciliar de uma briga silenciosa. A beleza do lamento que nos toca onde dói, ensinando que doer é bom sinal. Na segunda música, a tristeza veio muito mais sutil, em disfarce de sorriso. Dinheirize-se fala sobre a piada que gostamos de nos contar todas manhãs, antes do café. Sobre as coisas como são, o tempo e seu estado sólido, o dinheiro. Ao longo da canção, vamos entendendo que o ritmo da música é também o compasso de viver. Mais tarde, quando fui descobrir que João se formou em Letras com um trabalho de conclusão em que musicava poemas de Manuel Bandeira, tudo fez muito sentido. A sensibilidade presente ali é rara, brasileira mas universal. É triste, mas quando sorri mostra dentes sinceros.

Vicente Carcuchinski (Porto Alegre, junho de 2016)

Dinheirize-se

Território/Fauna

Conta-gotas

Ficha Técnica:
Direção de Fotografia / Câmera 1 – Leo Caobelli
Câmera 2 / Edição – Vicente Carcuchinski
Fotografia Still – Sheila Uberti
Produção – Julia Assef
Desenho de Som / Som Direto – Coletivo 4’33”

Bio

 Brasileiro natural de Rosário do Sul, 32 anos de idade. Guitarrista, cantor e compositor da banda Renascentes, formado em Letras pela Universidade Federal do Rio grande do Sul, teve como trabalho de conclusão de curso um estudo da obra do poeta pernambucano Manuel Bandeira, em que musicou 14 de seus poemas. Um dos fundadores do coletivo Escuta: o som do compositor e integrante ativo do ASC (Autoral Social Clube) e do Vossa Autoria. Também integrante da banda Subtropicais, fez trabalhos de arranjos e gravação do EP Minha Confusão do compositor Leo Aprato e gravou guitarras no EP do compositor Poty Burch. Guitarrista convidado para fazer shows com importantes artistas gaúchos como Hique Gomes, Carmen Correa, Saulo Fietz, Everton Pires e Lara Rossato. E também fez parte do espetáculo A História de Claudia em que músicas de sua autoria foram executadas. Participou tocando cajón, violão, ukulele, bandolim, teclado, baixo e cantando.

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