Carmen Correa

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 Carmen, assim como Poty, chegou aos meus ouvidos (ou seria à minha tela?) através do Escuta. Fui indo de um video a outro, de uma música a outra. Ela já estava no processo de gravação do disco de estréia e ia publicando alguns trechos desses bastidores. Era interessante ver aquilo tudo se criar quase em tempo real. De cara já me interessou o quanto ela se abria para mostrar algo ainda não pronto, acabado. E assim montei meu conceito mental de quem era Carmen Correa, a partir de um apanhado de links contendo fotos, vídeos e textos.

 A primeira vez que nos encontramos foi em março ou abril deste ano, já com o Fauna aprovado e em pré-produção. Na real aquela foi a primeira vez que encontrei a maior parte dos artistas desse primeiro mapeamento. Virtual ou fisicamente todos os 11 mapeados estiveram presentes aqui no Barraco Cultural, nosso escritório-cafofo-residência-produtora e, claro, sede do Fauna Festival em sua primeira edição. Comecei a falar sobre a proposta do festival e da plataforma ainda antes dela chegar. Fechamos as datas, falamos dos vídeos, das entrevistas, das viagens, as mil facetas do projeto como um todo. Daí a Carmen chegou. Aquele meu conceito dos links tomou o primeiro choque. Ela não era uma menininha pequena e frágil da voz e violão que eu tinha imaginado. Carmen tinha algo como um metro e oitenta (embora eu seja péssimo para acertar altura ou idade) e uma presença que tomava conta do ambiente.

 Pulemos agora para o dia de gravação no Tung. Nossa lista de gravação tinha a seguinte ordem: Poty, João, As Aventuras, Carmen e Quarto Sensorial. O desafio de gravar todos no mesmo dia era uma tarefa árdua, mas que já nos colocava na primeira imersão da plataforma, algo que queríamos para dar corpo ao projeto. Carmen iria participar de um show no mesmo dia, então tínhamos um cronograma apertado e bem regulado. Terminamos As Aventuras e alguém avisou que ela não chegaria a tempo, teríamos que inverter a ordem e gravar o Quarto Sensorial antes. Ok. O desafio era deixar a Carmen para o final do set e ainda terminar tudo a tempo dela sair para o show.

 Filmamos o Quarto e começamos a passar a gravina da Carmen. Voz, violão, baixo, guitarra, teclado, percussão.  O relógio correndo. O violão ainda não tá bom. “Eu não te escuto”, ela disse. “Na real tá vazando tudo no canal do violão”, alguém disse. O relógio seguia correndo. Muda tudo, tenta em linha, troca os microfones, troca o pedestal. Tira daqui, coloca lá. Tic-tac, tic-tac. “Agora foi!” – “Vamos?”

 Foi aí que aquele conceito da presença se manifestou de novo. Enquanto cada um dos músicos passava seus instrumentos, conversava, ou fazia nada, Carmen tomava o lugar, ou seu lugar.  Fechada dentro de uma bolha de concentração ela cantava os primeiros versos de “Paralelo” sem que nada a abalasse. Ninguém mais estava ali. O áudio ainda não estava sendo gravado. O video ainda não estava sendo feito. Nada além dela cantando, pra dentro, pra ela mesma (e eu que via e filmava, mesmo que não valesse). “Vamos, guris?”, ela disse interrompendo o momento dela, que eu achei que era nosso, e passava a ser coletivo.

 Foram umas três versões de “Do outro Lado” até que ela definisse que valeu. O relógio corria, lembram? Já fazia uns 20 minutos que ela precisava ter saído pra chegar no show. Voltamos a “Paralelo”. Uma vez, ok. tic-tac. “Ficou rápido”. Segunda vez, ok. tic-tac. “Vamos mais uma?” Terceira vez, “segura aí, acabou a bateria da câmera”. Começa a terceira de novo, “segura aí, travou o computador”. Terceira vez da terceira… O computador queimou, a câmera não ligou mais, o relógio cobrou a saída. “Preciso ir, correndo”, ela disse. “Acho que temos”, respondi. “Deixamos a entrevista para outro dia”.

 Aquela coisa da presença era tão forte que não coube ali. Uma espécie de hecatombe digital sem grandes vítimas já que a câmera voltou a funcionar e o computador nem me lembro mais.  Descobrimos mais tarde que a segunda versão de “Paralelo” também só foi resgistrada por uma das câmeras, aquela que morreu e depois reviveu não resgistrou o arquivo. “Paralelo” virou assim plano sequência, take único, quase sempre focando ela. Preenchendo todo o lugar.

 “Paralelamente a mim, vai – o que me aguarda enquanto busco – o que me aguarda: a conclusão”.

 Nunca soube se ela chegou a tempo da participação no show.

(Leo Caobelli (Porto Alegre, junho de 2016)

Do outro lado

Território/Fauna

Paralelo

Carmen Correa | Voz
Gabriel Gorski | Violão
Carlos Ferreira | Guitarra
Bruno Vargas | Baixo
Alexandre Fritzen | Teclado
Giovanni Berti | Percussão

Ficha Técnica:
Direção de Fotografia / Câmera 1 – Leo Caobelli
Câmera 2 / Edição – Vicente Carcuchinski
Fotografia Still – Sheila Uberti
Produção – Julia Assef
Desenho de Som / Som Direto – Coletivo 4’33”

Bio

 Natural de São Leopoldo, Carmen Correa teve o primeiro contato com a música já na infância, quando aprendeu a tocar violão e a compor. Iniciou sua carreira solo aos 18 anos e hoje, aos 27, está prestes a lançar o seu disco de estreia, com repertório autoral e produção musical de Marcelo Fruet. Ela foi uma das onze cantoras-destaque a se apresentar no palco do Araújo Vianna, no projeto Domingo no Parque em 2016. Em 2015 foi uma das vencedoras do Festival da Música da Juventude de Porto Alegre. Se apresentou ao lado de Hique Gomez no sarau-espetáculo “Ts’ui – A Reunião” e iniciou sua trajetória musical com o show “Carmen Canta Ella – uma homenagem à Ella Fitzgerald”, apresentado no Circuito de Música Erudita de Ipatinga/MG.

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